A leitura da Bíblia afeta o comportamento moral de uma criança?
Pesquisas anteriores do CPB com adultos e adolescentes mostram que as pessoas que se engajam com as Escrituras com frequência apresentam comportamentos mais proativos, como entregar o dízimo, do que aquelas que raramente leem a Bíblia. Aqueles que ouvem a Deus por meio de Sua Palavra também são menos propensos a adotarem comportamentos “de risco”, como nutrir pensamentos negativos acerca de si mesmos ou sobre os outros (mesmo quando se controla a idade, o gênero, a frequência à igreja e as práticas de oração). Então nos perguntamos se o mesmo se aplicava às crianças.
Queríamos observar também a vida espiritual das crianças para entender a melhor maneira de discipular os pré-adolescentes recém convertidos. Nossas perguntas específicas de pesquisa foram:
- Quais são os hábitos de leitura bíblica de crianças em idade escolar?
- Quanto elas leem a Bíblia sozinhas e com seus pais?
- Como as crianças acham que se comunicam com Deus?
- Como os hábitos de leitura da Bíblia se relacionam com outras atividades e comportamentos espirituais?
Em nosso estudo, descobrimos que uma das melhores maneiras de discipular as crianças é incentivá-las a ler ou ouvir a Bíblia. Por exemplo:
- As crianças que se identificavam como cristãs e as que liam a Bíblia pelo menos uma vez por semana tinham maior probabilidade de dizer que ouviam Deus por meio da Bíblia ou de orações respondidas.
- Entre os entrevistados, as crianças que se identificaram como cristãs eram mais propensas a ler a Bíblia de 4 a 7 dias por semana, sozinhas e com suas famílias.
- As crianças que leem a Bíblia pelo menos quatro dias por semana têm 54% menos chances de adotar algum comportamento de risco, como fumar e trocar mensagens sexualmente explícitas, em comparação com aquelas que não leem nada.
- As crianças que leem a Bíblia pelo menos de um a três dias por semana têm 43% menos chances de se envolver em um comportamento de risco, em comparação com aquelas que não leem.
Embora os níveis mais altos de engajamento com a Bíblia estejam relacionados a menos comportamentos que são geralmente proibidos por lei para menores, a frequência à igreja mostrou-se ainda mais relevante. De acordo com estudos, descobrimos que as crianças que frequentam a igreja pelo menos uma vez por mês têm uma probabilidade significativamente menor de se envolver em tais comportamentos de risco. Esses efeitos não foram encontrados com relação à oração.
Dito isso, a frequência à igreja praticamente não tem impacto sobre os riscos relacionais, ou seja, aqueles comportamentos que são monitorados ou controlados com menos frequência pelos pais (como mentir, enganar, praticar bullying, fofocar e ter pensamentos negativos). Surpreendentemente, entre as atividades espirituais, o engajamento com a Bíblia é a única disciplina espiritual que parece ter um efeito positivo sobre esses tipos de comportamento. As crianças que leem ou ouvem a Bíblia pelo menos quatro dias por semana costumam mentir menos e apresentam uma taxa menor de envolvimento em qualquer um dos comportamentos de risco relacional.
A seguir, apresentamos outros achados de nossa pesquisa e analisamos a vida espiritual das crianças, suas práticas espirituais, vida de oração e leitura da Bíblia, hábitos que afetam seu comportamento.
Sobre o estudo
Para esse estudo, pesquisamos uma amostra aleatória de 1.009 crianças estadunidenses entre 8 e 12 anos de idade.* A pesquisa de 45 questões continha uma mistura de perguntas fechadas e abertas a respeito do comportamento moral das crianças, suas crenças espirituais e seu envolvimento em atividades espirituais. Especificamente:
- Frequência a atividades religiosas
- Oração
- Leitura da Bíblia por conta própria e com a família
- Como se comunicam com Deus
Mais da metade das crianças se identificou como cristã protestante (54,6%). A segunda preferência religiosa foi católica romana, seguida por ateísmo ou nenhuma religião. Quase um terço (31,1%) das crianças relatou ser um “cristão nascido de novo” (João 3:3).

Crenças espirituais das crianças
Não é de surpreender que as crenças das crianças a respeito do que acontece após a morte variem de acordo com sua preferência religiosa.
- Normalmente, as crianças protestantes e aquelas que se identificam como cristãs nascidas de novo acreditam que irão para o céu se tiverem aceitado Jesus Cristo como seu salvador pessoal.
- Entre as crianças católicas romanas e aquelas que não se identificam como cristãs nascidas de novo, a crença predominante é de que você irá para o céu porque tentou ser uma boa pessoa e viver uma boa vida.
- A maioria das crianças com preferências religiosas que não sejam protestantes ou católicas acredita que irá para o céu porque tentou ser uma boa pessoa ou diz que não sabe o que acontece quando você morre.
- Expressivamente, 16,2% dos pré-adolescentes disseram não ter certeza do que acontece quando morremos.

Práticas espirituais das crianças
A oração é quase universal entre as crianças de 8 a 12 anos, independentemente da preferência religiosa. A maioria das crianças também frequenta a igreja pelo menos uma vez por mês. Entretanto, apenas uma minoria significativa leu ou ouviu a Bíblia na semana anterior à pesquisa.

Analisando mais a fundo os hábitos de leitura da Bíblia, descobrimos que os pré-adolescentes são mais propensos a ler a Bíblia sozinhos do que com suas famílias. É interessante notar que as crianças que se identificam como cristãs nascidas de novo têm taxas substancialmente mais altas de engajamento nas diversas práticas espirituais observadas. No entanto, mesmo entre esse grupo, um em cada três não leu ou ouviu a Bíblia sozinho e dois em cada cinco não o fizeram com suas famílias na última semana.

Também vale destacar que, entre os entrevistados, as crianças que se identificam como cristãos nascidos de novo são mais propensas a ler a Bíblia de 4 a 7 dias por semana, tanto sozinhas como com suas famílias.

Pesquisas anteriores do CPB mostram que as crianças que leem a Bíblia com suas famílias são mais propensas a ler a Bíblia sozinhas pelo menos uma vez por semana e a ler toda a Bíblia. Além disso, as crianças que se engajam com a Bíblia enquanto crescem têm maior probabilidade de ler a Bíblia de forma consistente quando adultas.
Comunicação com Deus
Para entender melhor como as crianças enxergam a comunicação com Deus, fizemos duas perguntas simples e abertas. A primeira foi “Como você se comunica com Deus?”, seguida de “Como Deus se comunica com você?”.
A maioria das crianças (75,9%) indicou que se comunica com Deus por meio da oração:
“Falo com Ele como falo com qualquer pessoa”
“Quando vou dormir, oro e agradeço pelo que Ele fez por mim”
“Orando, tendo fé nele e esperando que Ele possa me ajudar a tomar as decisões certas”.
Outros mencionaram a comunicação com Deus por meio da igreja (4,5%), das canções (0,7%), em seus pensamentos (1,1%) ou em suas ações (0,5%). Menos de um em cada dez (7,8%) declarou que não se comunica com Deus ou que não acredita em Deus.
Encontramos uma diversidade maior nas respostas quando perguntamos como Deus se comunica com eles. Em nossa amostra, 13,7% disseram que não sabiam como Deus se comunicava com eles e outros 8,4% acharam que Deus não se comunicava com eles de forma alguma.
A Bíblia ou a Palavra de Deus foi mencionada por 11,5% das crianças. Por exemplo:
Quando leio a Bíblia, encontro a resposta.
Ele me mostra Sua vontade por meio das Escrituras e dos acontecimentos em minha vida. Ele fala ao meu coração/alma.
Ele me ensina quando leio a Bíblia, me diz coisas dentro do meu coração, tipo ser gentil com meu irmão e minha irmã.
Respondendo às minhas orações, às vezes encontro um versículo na Bíblia que parece ter sido escrito especialmente para mim.
As crianças de nossa amostra também consideravam com frequência os resultados dos acontecimentos como uma comunicação de Deus. Por exemplo, respostas a orações ou coisas boas que acontecem na vida foram mencionadas quase tão frequentemente quanto a Bíblia.
Por meio do que acontece ao meu redor. Às vezes, Deus responde às minhas orações apenas cuidando de mim e da minha família. Outras vezes, Ele me cura de doenças ou de outras necessidades específicas pelas quais oro.
Ele ouve e às vezes responde às minhas orações.
Ele responde às minhas orações, mas nem sempre da maneira que eu quero.
Ele me dá uma boa mamãe que cuida de mim.
Da mesma forma, algumas crianças expressaram a comunicação de Deus como se Ele estivesse cuidando delas ou orientando-as em determinadas ações e decisões:
Ele está sempre cuidando de mim.
Ele garante que eu esteja seguro.
Todos os dias eu acordo em uma casa quentinha.
Ajudando-me a fazer as escolhas certas.
Os sentimentos, como a sensação de paz, também desempenham um papel importante na maneira como as crianças acham que Deus se comunica com elas:
Paz em meu coração quando tomo decisões, sinais claros como enviar pessoas para me ajudar com meus problemas ou dúvidas.
Com um sentimento que Ele coloca em meu coração.
Pensamentos/sentimentos tranquilos. Novas ideias. De repente, surge uma resposta.
Eu simplesmente me sinto melhor por dentro, como se Ele estivesse comigo.
Por fim, algumas crianças relataram que buscam no mundo exterior a comunicação com Deus:
Ele fala comigo em meu coração quando eu oro. Eu o vejo agindo em todas as coisas ao meu redor, como nas árvores se movendo, o vento soprando, a chuva caindo, as plantas e flores desabrochando, e sei que é Deus agindo.
No sol e nas coisas bonitas.
Estando presente e ouvindo cada um de Seus filhos. Quando as coisas dão certo de um jeito misterioso.
A maioria das crianças que leem a Bíblia pelo menos uma vez por semana e aquelas que se identificaram como cristãs nascidas de novo disseram que ouviram a Deus por meio da Bíblia ou através de orações respondidas. Elas também eram menos propensas do que as outras crianças a dizer que não sabem como Deus se comunica com elas ou que Ele não se comunica com elas.
Engajamento com a Bíblia e comportamentos de risco das crianças
Uma quantidade significativa de estudos documenta uma relação forte entre a frequência à igreja e a redução de comportamentos considerados imorais pela maioria das comunidades religiosas ou que representam um risco para o indivíduo ou para outras pessoas. Queríamos entender até que ponto essas questões se aplicam às crianças.
Para examinar a relação entre o engajamento com a Bíblia e o comportamento, pedimos às crianças que classificassem em uma escala de 1 a 6 a frequência com que participam de determinadas atividades, sendo 1 “não faço isso” e 6 “todos os dias”. Por meio da análise de fatores, determinamos dois tipos diferentes de comportamento:
- Um fator, que chamamos de riscos comportamentais, consiste em fumar, beber, atividade sexual, ver pornografia, “sexting” (ou seja, enviar ou publicar fotos de nudez) e jogos de azar. Em comparação com outros comportamentos avaliados, eles compartilham a característica comum de serem geralmente proibidos por lei para menores e limitados pelo monitoramento e controle dos pais.
Como mostra a figura abaixo, a maioria dos pré-adolescentes relatou que não participava de nenhum risco comportamental. A maior taxa de prevalência foi observada em relação à atividade sexual, com um em cada dez jovens de 8 a 12 anos indicando que faziam sexo pelo menos uma vez a cada poucos meses.

- O segundo fator, riscos relacionais, inclui fofoca, trapaça, mentira, provocação ou intimidação de outras pessoas, e pensamentos negativos. Em muitos aspectos, esses comportamentos estão todos fora do controle dos pais e podem ser moralmente ambíguos. Todos eles também afetam os relacionamentos com outras pessoas. Não é de surpreender que os riscos relacionais tenham sido muito mais comuns em nossa amostra. Metade dos pré-adolescentes (52,0%) relatou mentir pelo menos a cada poucos meses, um terço disse que faz fofoca (35,3%) e um quinto provocou ou intimidou outras pessoas (20,3%). Talvez o mais preocupante seja a constatação de que um em cada cinco (17,6%) indicou ter pensamentos negativos sobre si mesmo e sobre os outros.
Em nossas análises finais, consideramos as relações entre o engajamento com a Bíblia e o comportamento como uma medida da espiritualidade das crianças. Em outras palavras, será que a frequência com que uma criança lê ou ouve a Bíblia prevê níveis mais baixos de riscos comportamentais e relacionais, para além dos efeitos mais tradicionais de medidas de espiritualidade, como a frequência à igreja?
Ao avaliar a frequência à igreja, descobrimos que a idade e o engajamento com a Bíblia são preditores estatisticamente significativos.
- Quanto mais velha a criança se torna, a chance dela se envolver em um risco comportamental aumenta em 13%.
- As crianças que leem a Bíblia pelo menos quatro dias por semana têm chances 54% menores de se envolver em um risco comportamental, em comparação com aquelas que não leem a Bíblia.
- As crianças que leem a Bíblia pelo menos de um a três dias por semana têm chances 43% menores de se envolver em um risco comportamental, em comparação com aquelas que não a leem em absoluto.
Quando adicionamos a frequência à igreja ao nosso modelo, a idade permanece significativa, mas o engajamento com a Bíblia, não. De acordo com estudos, descobrimos que as crianças que frequentam a igreja pelo menos uma vez por mês são muito menos propensas a se envolver em comportamentos de risco comportamental. Frequentar a igreja pelo menos uma vez por mês reduz as chances de risco comportamental em 62%. Esses efeitos não são os mesmos para a oração. É interessante notar que os efeitos do engajamento com a Bíblia nos riscos comportamentais desaparecem quando a frequência à igreja também é considerada.
Para os riscos relacionais, as pontuações somadas da escala foram distribuídas normalmente, o que nos permitiu realizar uma análise de regressão múltipla. Surpreendentemente, as atividades espirituais não têm associação estatística com a maioria dos riscos relacionais (comportamentos que são monitorados com menos frequência pelos pais). Ler ou ouvir a Bíblia é a única disciplina espiritual que parece ter um efeito positivo sobre esses tipos de comportamento. Acreditamos que essa descoberta mostra o poder da Palavra de Deus para mudar corações. Por exemplo:
- As crianças que leem ou ouvem a Bíblia pelo menos quatro dias por semana mentem menos e apresentam uma taxa menor de envolvimento em qualquer um dos comportamentos de risco relacional.
- Cada dia dedicado à leitura da Bíblia diminui sua pontuação de risco relacional em 10,3%.
Os efeitos do engajamento com a Bíblia sobre os riscos relacionais permanecem quando consideramos também a frequência à igreja. De fato, a frequência à igreja não interfere com os riscos relacionais entre as crianças.
Conclusões
O Centro de Pesquisa Bíblica (CPB) avaliou as práticas espirituais das crianças e seu comportamento moral, concentrando-se no papel que o engajamento bíblico desempenha, além da frequência à igreja e da oração. A Bíblia é a única maneira de uma pessoa realmente saber que está ouvindo a Palavra de Deus. Alguns argumentam que a falta de um sólido alicerce bíblico é um dos principais fatores por trás do fenômeno de adolescentes anteriormente ativos que abandonam a igreja. A pesquisa do CPB é consistente com esse argumento, demonstrando que as crianças mais propensas a declarar que ouvem Deus se lerem ou ouvirem a Bíblia regularmente.
Corroborando também nossos estudos anteriores com adultos e adolescentes, encontramos relações significativas entre o engajamento com a Bíblia e vários comportamentos morais. Entretanto, uma diferença importante entre as crianças é que os efeitos são mais proeminentes nos comportamentos que têm menos probabilidade de serem controlados pelos pais. Acreditamos que isso mostra o poder da Palavra de Deus para mudar corações.
Além disso, embora a frequência à igreja tenha sido considerada um indicador mais forte de comportamentos que estão sob o controle dos pais, é importante considerar o que pode acontecer nessas áreas quando as crianças entrarem na idade adulta. Nossos estudos anteriores com adolescentes sugerem que o engajamento com a Bíblia surge nesse estágio como o melhor indicador espiritual de comportamento.
Esse estudo ampliou nossa compreensão da espiritualidade das crianças ao examinar seus padrões de engajamento com a Bíblia e como elas ouvem a Deus. Em suma, o engajamento com a Palavra de Deus é uma das melhores maneiras de ajudar as crianças a crescerem espiritualmente para que possam resistir às tentações, tanto agora quanto na adolescência e na idade adulta.
Veja pesquisas relacionadas do CPB:
Engajamento bíblico entre jovens cristãos: implicações para o discipulado (em inglês)
Evidência científica para o poder dos 4 (em inglês)
Letramento bíblico e crescimento espiritual: resultados das pesquisas (em inglês)
Veja conteúdos de Ministérios Pão Diário relacionados a esse:
Intencionais (plano de leitura bíblica para adolescentes)
*A pesquisa foi distribuída por Survey Sampling International (SSI), que aplicou um questionário computadorizado.